Discernir os chamados de Deus com os santos

por Diácono Georges Bonneval

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S. Paulo:

S. Paulo menciona um carisma particular chamado: “discernimento dos espíritos” (1 Cor 12,10). Para o Apóstolo, esta expressão tem um sentido bem preciso: indica o dom que permite distinguir, entre todas as palavras inspiradas ou proféticas pronunciadas durante uma assembleia, aqueles que vêm do Espírito de Cristo e as que provêm de outros espíritos: o espírito do homem, ou o espírito demoníaco, ou do espírito do mundo. Para ele, o critério fundamental de discernimento é verificar o espírito que proclama que Jesus é “Senhor” (cf. 1 Cor 12,3). Esse é o Espírito Santo.

Também na primeira Epístola aos Tessalonicenses, o Apóstolo lista uma série de conselhos, para dar-lhes alguns critérios de discernimento: “Alegrai-vos sempre, orai sem cessar. Por tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus. Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom. Guardai-vos de toda espécie de mal” (1 Ts 5,16-22).

S. João:

Para o Evangelista João, o discernimento consiste em “examinar os espíritos para ver se são de Deus” (1 Jo 4,1-6). Para ele, trata-se de reconhecer que Jesus “veio na carne”, de outro modo, ele sublinha a importância da encarnação do Verbo. Com S. João, o discernimento começa a ser utilizado como função teológica, como critério para distinguir as verdades das falsas doutrinas, a ortodoxia da heresia, e posteriormente, esse discernimento tornar-se-á fundamental, para a Igreja.

Sto. Inácio de Loyola:

Nos exercícios espirituais encontramos diversos exercícios e regras para fazer uma boa eleição (uma eleição “revogável” como para a escolha de um trabalho ou de uma orientação de estudos, ou uma eleição “irrevogável” como a escolha definitiva de uma vida religiosa e do matrimônio).

A justeza de uma decisão mede-se igualmente através de diversos regras, que fazem parte dos exercícios de eleição, quer dizer, do discernimento. Citaremos somente quatro dessas regras, escolhidas entre as mais importantes de eleição e que são dadas durante a segunda semana dos Exercícios:

Primeira regra:

“A primeira regra é que aquele amor que me move e me faz eleger tal coisa, desça do alto, do Amor de Deus, de forma que quem elege, sinta primeiro em si, que o amor maior ou menor que tem à coisa que elege é unicamente por seu Criador e Senhor.” (Sto Inácio de Loyola, E.E, nº 184)

Segunda regra:

“A Segunda regra é imaginar um homem a quem nunca tenha visto nem conhecido, e desejando-lhe eu toda a sua perfeição, considerar o que eu lhe diria que fizesse e elegesse para maior glória de Deus nosso Senhor e maior perfeição de sua alma; e, fazendo eu da mesma maneira, guardarei a regra que para o outro proponho.” (E.E, nº 185)

Terceira regra:

A Terceira regra é considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a norma de proceder que então quereria ter tido, no modo de fazer a presente eleição; e, regulando-me por ela, em tudo, faço a minha determinação.” (E.E, nº 186)

Quarta regra:

“A Quarta regra é, atendendo e considerando como me acharei no dia do juízo, pensar como então quereria ter deliberado sobre o assunto presente; e a regra que então quereria ter tido, tomá-la agora, para que então me ache com inteiro prazer e gozo.” (E.E, nº 187)

Nota: “Tomadas as regras sobreditas para minha salvação e quietude eterna, farei a minha eleição e oblação a Deus nosso Senhor, conforme ao sexto ponto do primeiro modo de fazer eleição.” (E.E, nº 188)

“Omnia ad maiorem Dei gloriam”, “Para a maior glória de Deus” , esta expressão foi, sobretudo, utilizada por Inácio nas suas cartas, e tornou-se a divisa dos Jesuítas.

S. Francisco de Sales:

Podemos encontrar muitos conselhos e princípios de discernimento espiritual e vocacional nas Cartas escritas por S. Francisco de Sales. De fato, na sua época, o Santo Bispo de Genebra, escreveu imensas cartas de direção espiritual, entre outras, à Baronesa de Chantal, que seria Sta. Joana de Chantal: “Eis a regra da nossa obediência, que te escrevo com caracteres grandes: fazer tudo por amor, nada por força — amar mais a obediência do que temer a desobediência. Deixo-te o espírito de liberdade, não aquele que exclui a obediência, porque ela é a liberdade do mundo; mas aquele que exclui a violência, a ansiedade e o escrúpulo” (Carta, 14 de Outubro de 1604).

Mas é no Tratado do Amor de Deus”, verdadeira suma teológica sobre o Amor Divino, publicado em 1616, que S. Francisco de Sales desenvolve a questão da vontade de Deus que devemos praticar (cf. Tratado do Amor de Deus, Livro 8, nº 810 a 950). Neste documento, dirige-se a dois interlocutores: um feminino: Filotéia, que é a “alma que aspira à devoção” e outro masculino: Teótimo é: “o espírito humano que deseja fazer progressos em união com Deus”.

Para S. Francisco de Sales, a vontade de Deus faz-se compreender para nós de duas maneiras:

- A Vontade de Deus Significada (quer dizer “expressa” pelos mandamentos, a Lei Divina, as palavras do Senhor, os conselhos evangélicos; porque Deus nos revelou e nos manifestou que Ele quer e espera que tudo isso seja acreditado, esperado, temido, amado e praticado).

- E a vontade do Seu Beneplácito Divino (que corresponde às causas secundárias, positivas e negativas, e que nos vêm segundo a boa vontade da Sua Divina Providência).

Para Francisco, a Vontade “Significada” tem três partes:

1) Devemos conformar a nossa vontade à vontade de Deus, quando ela nos é revelada pelos Seus Mandamentos (Tratado do Amor de Deus, nº 850):

“Atendendo ao desejo de Deus, o amor de complacência quer observá-los para agradar-Lhe; o amor de benevolência que tudo quer sujeitar à vontade divina, submete todos os desejos e aspirações à vontade que Deus deixou expressa.”

“Oh! Como é suave e apetecido o jugo da Lei Divina, por ser estabelecido por um Rei tão amável! Um coração amoroso estima os mandamentos…”

2) Devemos conformar a nossa vontade à de Deus, quando ela nos é significada pelos Seus Conselhos (Tratado do Amor de Deus, nº 860):

“O mandamento supõe uma vontade absoluta e formal daquele que ordena, enquanto que o conselho apenas representa uma forma de desejo. O mandamento obriga enquanto que o conselho só nos incita.”

“Quem manda, usa de autoridade para obrigar; quem recomenda, usa de amizade para convencer e incitar… seguimos o conselho para agradar, o mandamento para não desagradar… Esta é a razão do amor de complacência, que nos obriga a agradar a Jesus, seguindo por consequência os Seus Conselhos… ‘Se queres ser perfeito, disse o Salvador, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e segue-me’ (Mt 10,21)”.

“Todos os conselhos são dados para perfeição do povo cristão, mas não se podem aplicar indistintamente a cada cristão em particular. Há circunstâncias que os tornam impossíveis…”

“Tudo se faz pela caridade, e a caridade por Deus; tudo e todos devem servir a caridade e ela a ninguém, nem mesmo ao seu amado, de quem não é serva, mas esposa. Por esse motivo, é a ela que havemos de pedir que nos indique e inspire o verdadeiro conselho.”

“Ela faz Mártires mais vermelhos que a rosa, virgens mais alvas que o lírio; a uns dá a fina violeta da mortificação, a outros o amarelo dos cuidados do matrimônio, empregando conselhos diversos para um fim único, qual é o da perfeição das almas, que não podem alcançar a felicidade suprema senão sob a sua direção.”

“O amor da vontade significada pelos mandamentos, leva-nos ao amor dos conselhos”.

3) Devemos conformar nossa vontade à de Deus, quando ela nos é significada pelas inspirações (Tratado do Amor de Deus, nº 8100):

Para S. Francisco, Deus inspira-nos através de uma variedade de meios:

“A inspiração é um raio celeste cuja luz acalentadora nos penetra no coração, deixando-nos conhecer o bem e animando-nos a procurá-lo.”

“O Espírito divino é uma luz infinita, cujo sopro vital se chama inspiração… Ora, os meios de que Deus se serve para nos inspirar são infinitos.”

“O meio ordinário é a pregação; porém, às vezes, aqueles a quem a Palavra não aproveita, instruem-se na tribulação…”

“E fora de dúvida que as almas que não se contentam em observar os mandamentos e os conselhos do divino Esposo, mas que seguem com prontidão as sagradas inspirações, ah! São essas que o Pai Eterno preparou para serem as diletas esposas do Seu Amado Filho.”

“Quando vacilarmos, por o conselho dos homens nos faltar em nossas perplexidades, Deus há-de inspirar-nos; e, se formos obedientes, não consentirá que erremos.”

“A perseverança na vocação, é o primeiro sinal da inspiração.”

“A paz e sossego do coração é a segunda prova da inspiração.”

“O Espírito divino é deveras imperioso, mas o império que exerce é doce, é suave e pacífico. Vem como um vento impetuoso (At 2,2) e como um raio celeste, mas não derruba os Apóstolos, nem sequer os perturba: o temor que a sua vinda lhes causa é momentâneo e para logo se transforma na mais doce confiança…”

“A obediência perfeita à Igreja e aos superiores, é a terceira prova da inspiração.”

“A paz e o sossego do coração aliam-se inseparavelmente a santa humildade, mas eu não classifico de humildade esse cerimonioso conjunto de palavras, gestos, inclinações e reverências, esse hipócrita beijar o chão, quando tudo isso se faz, como muitas vezes sucede, sem o sentimento interior da própria abjeção, e da justa estima do próximo. Eu refiro-me àquela humildade nobre, real, delicada, sólida, que nos torna brandos na correção, submissos e prontos na obediência…”

“O que disser que não segue os conselhos de seus superiores e lhes desobedece, por haver sido inspirado, esse falta à verdade.”

“Todos os profetas e pregadores que foram inspirados por Deus, amaram sempre a Igreja, aderiram incondicionalmente à Sua doutrina, e nunca deixaram de apregoar com convicção esta grande afirmação: ‘os lábios do sacerdote encerram a verdade e é deles que devemos aprender a lei’ (cf. Ml 2,7).”

“Resumindo: as três melhores e mais incontestáveis provas das inspirações legítimas, são: a perseverança, em oposição à inconstância e volubilidade; a paz e mansidão do coração, contra as inquietações e falta de sossego; a humilde obediência, contra a obstinação e o capricho.”

A vontade “do Beneplácito de Deus” (Tratado do Amor de Deus, nº 910)

“Entre todas as práticas do perfeito amor, a que se faz pelo consentimento do espírito nas tribulações espirituais é indubitavelmente a mais alta e delicada.”

“Dando Nosso Senhor a escolher a Santa Catarina de Sena uma coroa de ouro ou uma de espinhos, a Santa optou por esta última, por ser mais adequada ao Amor.”

S. Francisco de Sales (nos nos 940-990), desenvolve neste capítulo, a dimensão do abandono confiante e da santa indiferença, que fazem parte do tema da vontade do beneplácito divino. Como já abordamos este tema no mês precedente, não o desenvolveremos aqui de novo.

Por fim, S. Francisco de Sales dá a seus dois interlocutores, um “breve método para conhecer a vontade de Deus”, que nos pareceu interessante traduzir neste ano consagrado ao discernimento e à orientação dos jovens.

Breve método para conhecer a vontade de Deus (Tratado do Amor de Deus, nº 8140)

“S. Basílio diz que a vontade de Deus ficou expressa nos seus Mandamentos e, portanto, nada temos a deliberar; basta realizar o que nos ficou imposto: Para tudo o mais, temos a liberdade de escolher o que melhor nos pareça… e na verdade, para distinguirmos melhor o que nos convém, devemos ouvir o prudente conselho do nosso pai espiritual.”

1) Colocar a atenção sobre o importante e não sobre todos os detalhes

(S. Francisco insiste neste capítulo sobre a perda de tempo e de energia quando os temperamentos são excessivamente “escrupulosos, inquietos e supersticiosos” e têm, de fato, dificuldade a escolher e a decidir-se).

“Vou, porém, avisar-te, Teótimo, sobre uma tentação que muito perturba e a que as almas estão muitas vezes expostas, quando sentem o desejo de seguir em tudo o que for mais do agrado de Deus: o inimigo, em todas as coisas, coloca-lhes a dúvida se é vontade de Deus que elas façam uma coisa em vez da outra”.

“Deste modo muitos divagam sobre qual será melhor: ir jantar com um amigo, ou não ir; vestir-se de claro ou de escuro; jejuar à sexta ou ao sábado; distrair-se ou meditar; assim desperdiçam muito tempo.”

“Não está em uso pesar o dinheiro miúdo, mas apenas moedas de grande valor; o negócio tornar-se-ia exageradamente fastidioso e despenderia muito tempo se fosse mister pesar todo o dinheiro em giro. Também não devemos enlear-nos com o peso das mínimas ações, procurando saber se valem mais do que outras. Neste exame chega a entrar a superstição.”

“Para que hei de eu pôr-me a imaginar se será mais do agrado de Deus que recite o Rosário ou o Ofício de Nossa Senhora; não há nessas escolhas diferença tão extraordinária que mereça profundas deliberações?”

“Como diz S. Basílio, façamos o que nos parecer bom e não deixemos que o espírito se perca em divagações; aproveitemos o tempo e não demos margem a inquietações, escrúpulos ou superstições.”

2) Luz do Espírito Santo e conselho do pai espiritual

“Peçamos antes a luz do Espírito Santo, procuremos encontrar o melhor caminho, ouçamos o conselho do nosso diretor, ou de duas ou três pessoas espirituais e, feito isto, resolvamos tudo em nome de Deus, não revogando depois, nem pondo dúvidas na escolha que fizemos, mas perseverando nela e sustentando-a com devoção, com paz, com constância.”

3) Permanecer firmes:

“Embora depois sobrevenham dificuldades, tentações, acontecimentos inesperados, que vão de encontro às nossas intenções e podem levar-nos a desconfiar da escolha feita, devemos ainda assim permanecer firmes e considerar que seria mil vezes pior se houvéssemos resolvido de outro modo. Nem nós podemos saber se Deus quer que encontremos no nosso caminho consolo ou tribulações, que nos exercitemos no sacrifício ou na paz.”

“Uma vez tomada qualquer resolução, não devemos hesitar nem duvidar da santidade do seu fim: mesmo esse fim não pode falhar, se lhe dermos o sincero concurso da nossa alma. Proceder de modo diverso é sinal de amor-próprio, criancice, fraqueza e pobreza de espírito.”

Qual é a nossa liberdade face à vontade significada de Deus? (Tratado do Amor de Deus, nº 830)

S. Francisco estabelece a relação entre a vontade significada de Deus e a nossa liberdade de aceitar ou de resistir.

“Esta vontade significada de Deus se apresenta em forma de desejo e não de ordem absoluta, e estamos no direito de a seguir por obediência ou de lhe resistir por desobediência.”

“Neste ponto, Deus efetua três atos da Sua divina vontade:

a) quer que possamos resistir;

b) quer que não resistamos;

c) e permite todavia que resistamos, se quisermos.”

“O podermos resistir depende da nossa natural condição e liberdade;

resistir, de fato, procede da nossa malícia;

não resistir é o desejo da divina Bondade.”

“Se, no entanto, resistimos, Deus em nada contribui para a nossa desobediência, mas deixa a nossa vontade entregue ao seu livre arbítrio, permitindo que escolha mal.”

“Se obedecemos, Deus concede o Seu socorro, a Sua inspiração, a Sua graça: porque a permissão é uma ação da vontade que de si é improdutiva, estéril, infecunda, e, por assim dizer, é uma ação passiva que nada faz, mas deixa fazer; ao inverso, o desejo é uma ação viva, fecunda, fértil, que excita, impele e obriga.”

“O que é mais desejável da nossa parte, é a conformidade do nosso coração com a vontade significada de Deus.”

“É por isso que nos conservamos de pé, enquanto o sacerdote lê as lições do Evangelho, mostrando-nos prontos a obedecer à sagrada interpretação da vontade do Senhor, contida no Evangelho.”

“Por isso beijamos o livro do Evangelho, para adorar a Palavra Santa que declara a vontade celeste.”

“Esse foi o motivo por que muitos Santos e Santas, antigamente, traziam escrito no peito o Evangelho, qual epítema de amor, como se lê de Sta. Cecília. Não há dúvida de que se encontrou o Evangelho de S. Mateus sobre o coração de S. Barnabé… Tal era a honra que se tributava à significação da vontade de Deus, expressa neste divino Livro.”