O evangelizador, o primeiro a ser chamado à evangelização e à conversão!

por Diácono Georges Bonneval

2017_BEL_FotosAndré (93).jpg

No início deste mês, entramos no tempo litúrgico da Quaresma. Ocasião de retribuir a Deus o que é Dele, particularmente nossas pessoas e nossas vidas.

O pecado, explica-nos a Escritura, rompeu em nós e no exterior de nós, várias harmonias vitais: nossa relação com Deus, nossa relação com a humanidade, com as criaturas, com o conjunto da criação e também conosco mesmos. Como consequências, diz o Papa Francisco: “a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se conflituosa (Cf. Gn 3, 17-19)” (Papa Francisco, Laudato Si, nº 66). Cada dia, constatamos estes conflitos, quer seja na nossa própria vida interior, quer em família e em fraternidade; em particular, na maneira de nos relacionarmos com os outros e com o nosso ambiente.

Criados à imagem de Deus, o ser humano recebeu - da parte do Criador - a missão de dominar a terra. Mas não é verdade que existe a constatação de uma tendência a uma dominação – por vezes absoluta – sobre as outras criaturas e as situações? Nenhum servo de Deus, quer seja ministro ordenado ou leigo, missionário ou evangelizador, está imune desse poder de dominação do pecado, sempre pronto a retomar seus direitos sobre nossa natureza.

Em 20 de agosto de 2018, o Papa Francisco dirigiu uma “Carta ao Povo de Deus”, na qual ele lamenta o pecado “do abuso de poder e de consciência”, cometido pelos membros da Igreja, em particular o clero e as pessoas consagradas. Nessa Carta, o Papa declara: “sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz”.

A história do Rei Davi pode servir de base para a nossa meditação penitencial, em 2Sm 12, 1-15:

“O Senhor mandou o profeta Natã falar com Davi. Ele entrou e lhe disse: ‘Havia dois homens na mesma cidade, um rico e o outro pobre. O rico possuía ovelhas e vacas em grande número. O pobre nada tinha senão uma ovelha, só uma pequena ovelha que ele havia comprado. Ele a criara e ela cresceu com ele e com os seus filhos, comeu do seu pão, bebeu no seu copo, dormindo no seu colo: era como sua filha. Um hóspede veio à casa do homem rico, que não quis tirar uma das suas ovelhas ou de suas vacas para servir ao viajante que o visitava. Ele tomou a ovelha do homem pobre e a preparou para a sua visita.’ Davi se encolerizou contra esse homem e disse a Natã: ‘Tão certo como o Senhor vive, quem fez isso é digno de morte! Devolverá quatro vezes o valor da ovelha, por ter cometido tal ato e não ter tido piedade.’ Natã disse a Davi: ‘Esse homem és tu! Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Eu te ungi rei de Israel, eu te salvei das mãos de Saul, eu te dei a casa do teu senhor, eu coloquei nos teus braços as mulheres do teu senhor, eu te dei a casa de Israel e de Judá, e se isso não é suficiente, eu te darei qualquer coisa. Por que desprezaste o Senhor e fizeste o que lhe desagrada? Tu feriste à espada Urias, o heteu; sua mulher, tomaste-a por tua mulher, e ele mataste pela espada dos amonitas. Agora, a espada não mais se apartará da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para que ela se tornasse tua mulher. Assim diz o Senhor: Na tua própria casa farei surgir a desgraça contra ti. Tomarei as tuas mulheres, debaixo dos teus olhos, e as darei ao teu próximo, que se deitará com as tuas mulheres à luz deste sol. Tu agiste em segredo, mas eu cumprirei tudo isso perante a face de todo o Israel e à luz do sol!’ Davi disse a Natã: ‘Pequei contra o Senhor!’ Então Natã disse a Davi: ‘Por sua parte, o Senhor perdoa a tua falta: não morrerás. Mas, por teres ultrajado o Senhor com o teu procedimento, o filho que tiveste morrerá.’ E Natã o deixou.”

Segundo a tradição, esta correção fraterna exercida pelo profeta Natã junto do rei de Israel, provoca a inspiração do salmo de arrependimento atribuído a Davi, o Salmo 51, que a liturgia nos faz rezar a cada sexta-feira.

Parece que foi o pecado de orgulho do rei – a autoridade suprema em Israel naquela época – que provocou os outros pecados: adultério e homicídio. O orgulho, a “basileia”, é o poder do pecado que leva a dominar, defendendo seus próprios interesses até ao fim. Davi recebeu, com certeza, a unção real, mas esse dom não foi concedido com o único fim do serviço de Deus e do povo eleito? Infelizmente, a trajetória e a utilização deste dom, foram desviadas. Diríamos, nos nossos dias, que ele pecou por “abuso de poder”, utilizando por sua própria conta e seu interesse, o dom divino. O Papa Francisco, na sua “Carta ao Povo de Deus”, junta ao pecado do abuso de poder e de consciência, a tendência do “clericalismo”: “Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo” (Carta ao Povo de Deus de 20 de agosto de 2018). Mesmo os leigos não estão imunes a esta tendência inata da natureza humana.

“Hamartia” é a palavra grega - utilizada no Novo Testamento da tradução dos Setenta - para definir o pecado. Exprime a ideia de faltar, mais ou menos gravemente, ao objetivo visado, quer seja uma norma ou uma lei, quer seja para com uma pessoa ou na relação com Deus. O pecado é, assim, chamado “adikia”, e a ideia é, então, a de praticar a injustiça. Podemos dizer que o fato de pecar “hamartia”, provoca o desvio do fim, gera o pecado consumado, a “adikia”, que produz a injustiça (Cf. Gn 3, 5; 3, 22). Seu orgulho de onipotência provoca frutos de injustiça.

Na história do rei Davi, arriscamo-nos a parar na monstruosidade de seu pecado e de ficar legitimamente escandalizados com isso. É necessário não ficarmos aí, mas encontrar, com este relato bíblico, a interpretação dos Padres da Igreja. Entre eles, a magnífica leitura que fez S. João Crisóstomo (Homilia 26), sublinhando dois traços importantes: a grandeza de alma do rei, particularmente na sua maneira de receber a correção do profeta, porque de maneira habitual, temos a tendência a negar aquilo que nos incomoda; e, dessa forma, a sua prontidão ao arrependimento e à penitência:

“O que revela a coragem de Davi, é que ele fez com tanta generosidade aquilo que um piloto de navio não poderia fazer. Depois desse naufrágio horrível que o fez perder, num momento, aquilo que ele tinha adquirido durante tantos anos, depois de tantos trabalhos feitos inutilmente, ele não cai no desespero, não se condena à escuridão eterna. Ele pega os destroços do seu naufrágio, refaz o seu navio; reúne os pedaços separados; junta as velas rasgadas, segura o leme em mãos; e, retornando ao mar, junta mais riquezas do que tinha adquirido anteriormente. Se admiramos aquele que consegue manter-se de pé sem cair, que louvor merece aquele que cai mas que, longe de se abater, se levanta tão prontamente? No entanto, quantas considerações poderiam ter jogado Davi no desespero! Primeiro, a grandeza do seu crime. Em segundo lugar, a idade em que ele se encontrava, porque ele não estava mais na juventude, onde o vigor alimenta facilmente nossa esperança, mas na velhice. Assim, o mercador que sofre naufrágio quase embarcando, não se aflige tanto quanto aquele que, regressando duma longa e feliz navegação, perde todo o fruto da sua pena, quebrando-se contra o rochedo. Em terceiro lugar, a imensidade das riquezas perdidas no desastre; de fato, que fortuna espiritual não tinha ele acumulado desde a sua infância, desde os tempos em que era pastor, pelo seu combate contra Golias; pela sua extrema doçura com Saul, testemunhando para com ele, uma generosidade evangélica, perdoando todas as vezes que ele caiu nas suas mãos e, preferindo perder seu país, sua liberdade e até mesmo sua vida, a matar um inimigo tão injusto, que procurava, sem cessar, os meios para o perder; enfim, pelas ações de virtude que ele fez depois de cingir o diadema real! (...)

Vós não ignorais de que força de espírito precisamos para não sermos perturbados quando vimos os nossos crimes divulgados em todo lado e todo mundo informado dos nossos crimes mais vergonhosos. É preciso ter uma alma heroica para não se desencorajar nessas situações. Davi baniu todos esses pensamentos do seu espírito. Ele arrancou da sua ferida o ferro que o tinha ferido – ele o lavou com tantas lágrimas e se tornou tão puro aos olhos de Deus, que ele pode, mesmo depois da sua morte, socorrer aqueles que eram seus descendentes, nos pecados que eles tinham cometido. Encorajados por esses grandes exemplos que Deus nos propõe, esforcemo-nos, meus irmãos, por não nos deixarmos desanimar; ou, se esse mal nos acontecer, não permanecer muito tempo na nossa queda. Não é para vos tornar mais negligentes e covardes, que eu vos falo assim de Davi, mas para vos imprimir mais temor. Porque, se este homem tão santo, tão justo, tão perfeito, foi visto por um pequeno defeito de vigilância, ferido de um golpe, de uma ferida mortal, em um tão grande perigo de se perder, em que nos tornaríamos nós, cuja vida é tão mole e tão relaxada?” (S. João Crisóstomo, Homilia 26)

Hoje, será que somos levados a uma leitura assim tão profunda e misericordiosa como aquela que fez João Crisóstomo no século IV? Verifiquemos entre nós se o sentido da nossa indulgência não estará enfraquecida.

O evangelizador e o missionário, assim como a comunidade, qualquer que seja, não estão, nem nunca estarão à altura da missão tão grande e nobre de anunciar o Evangelho. Não somos melhores que aqueles aos quais nós somos enviados!

Não devemos nunca perder de vista esta consideração espiritual, que a tradição monástica chama: “desconfiança de si mesmo” e devemos vigiar em permanência para nunca fazer do nosso serviço um poder e da nossa liberdade um abuso.

Nós somos tão pecadores como aqueles e aquelas que temos que evangelizar, da mesma massa e da mesma natureza. Se fomos agraciados, isso não depende de nós, não temos nenhum mérito, devemo-lo unicamente Àquele que, por pura misericórdia se deu a conhecer a nós. E esse dom recebido não é destinado somente a nós mesmos, mas é em vista daqueles a quem devemos partilhar esse mesmo dom.

O próprio Apóstolo Paulo, de tal maneira transformado e agraciado, continua, no entanto, a declarar: “pecadores, dos quais eu sou o primeiro!” (1Tm 1, 15). Na lista dos homens pecadores, nesse domínio, ele se reconhece o primeiro, como cabeça da lista; mas ele faz o mesmo quanto à misericórdia: “Se me foi feita misericórdia, foi para que em mim primeiro, Cristo Jesus demonstrasse toda a sua longanimidade, como exemplo para quantos Nele hão de crer para a vida eterna” (1Tm 1, 16).

“Os bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, são chamados a assumir uma atitude de permanente conversão pastoral, que envolve escutar com atenção e discernir ‘o que o Espírito está dizendo às Igrejas’ (Ap 2, 29) através dos sinais dos tempos nos quais Deus se manifesta.” (Documento de Aparecida, n° 366)

O Papa Bento XVI abriu o seu pontificado declarando: “Não bastam as manifestações de bons sentimentos. Fazem falta gestos concretos que penetrem nos espíritos e sacudam as consciências, impulsionando cada um à conversão interior, que é o fundamento de todo progresso no caminho do ecumenismo” (Cf. Documento de Aparecida, n° 234).

O Papa Francisco continua no mesmo sentido (na exortação Apostólica Evangelii Gaudium, nº 6):

“Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados.”

“Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão.

Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, nº 25)

E, por fim, o Papa Francisco sublinha dois obstáculos atuais na vida dos missionários, quer sejam padres, consagrados ou leigos: a mundanidade espiritual e a guerra entre nós!

Neste tempo de Quaresma que nos faz procurar um novo limiar de conversão, meditemos com o Papa sobre estes dois obstáculos.

Não ao mundanismo espiritual!

“O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal. É aquilo que o Senhor censurava aos fariseus: ‘Como vos é possível acreditar, se andais à procura da glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único?’ (Jo 5, 44). É uma maneira sutil de procurar ‘os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo’ (Fl 2, 21). Reveste-se de muitas formas, de acordo com o tipo de pessoas e situações em que penetra. Por cultivar o cuidado da aparência, nem sempre suscita pecados de domínio público, pelo que externamente tudo parece correto. Mas, se invadisse a Igreja, ‘seria infinitamente mais desastroso do que qualquer outro mundanismo meramente moral’.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n° 93)

“Já não há ardor evangélico, mas o gozo espúrio duma autocomplacência egocêntrica.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n° 95)

“Quem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com aparências de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais! Este mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus. Não deixemos que nos roubem o Evangelho!” (Idem, n° 97)

Não a guerra entre nós!

“Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos!” (Idem, nº 98) “O mundo está dilacerado pelas guerras e a violência, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio bem-estar... Aos cristãos de todas as comunidades do mundo, quero pedir-lhes de modo especial um testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e resplandecente. Que todos possam admirar como vos preocupais uns com os outros, como mutuamente vos encorajais, animais e ajudais... Peçamos a graça de nos alegrarmos com os frutos alheios, que são de todos.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n° 99)

“Por isso me dói muito comprovar como nalgumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes comportamentos?” (Idem, nº 100)

“Todos nós provamos simpatias e antipatias, e talvez neste momento estejamos chateados com alguém. Pelo menos digamos ao Senhor: ‘Senhor, estou chateado com este, com aquela. Peço-Vos por ele e por ela’. Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um belo passo rumo ao amor, e é um ato de evangelização. Façamo-lo hoje mesmo. Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!” (Idem, nº 101)