Jesus Cristo, primeiro missionário e evangelizador!

por Diácono Georges Bonneval

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Nós não anunciamos a nós mesmos

“Ele está Vivo! Ele mudou a minha vida!”. Estas são as primeiras declarações daqueles que, um dia, fizeram o encontro inaugural e inexprimível com o Senhor. É assim que o declara o Apóstolo Paulo: “Ele me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2, 20).

Como o declara igualmente a mulher samaritana: “Muitos samaritanos daquela cidade creram Nele, por causa da palavra da mulher que dava testemunho: ‘Ele me disse tudo o que fiz!’” (Jo 4, 39). E tantos outros testemunhos.

O Papa Francisco começa a sua Exortação Apostólica (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, nº1) nestes termos: “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Todos os que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior e do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria”.

O próprio Cristo é o primeiro e o maior evangelizador!

De uma certa maneira, devemos deixar o Senhor passar à frente em qualquer missão que seja. Isso exige do discípulo, antes de tudo, uma certa “passividade”, um abandono de fundo, não como a passividade de uma resignação ou preguiça, mas de uma consciência viva da fé que reconhece que, face a toda pessoa e situação, é Cristo quem nos precede.

“Todos os aspectos do Seu Mistério, a começar da própria Encarnação, passando pelos milagres, pela doutrina, pela convocação dos discípulos e pela escolha e envio dos Doze, pela Cruz, até a Ressurreição e à permanência da Sua presença no meio dos Seus, fazem parte da Sua atividade evangelizadora.”

(Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, n° 6)

Trata-se então de entrar na Sua iniciativa de amor e de salvação por todo o ser humano. “Deixe o Cordeiro passar à tua frente!”, esta palavra foi escutada pelo nosso padre e acompanhador espiritual, como uma profecia, em um encontro de oração que marcou a sua vida e o seu ministério.

O anjo da Ressurreição O tinha anunciado às mulheres chegadas ao túmulo: “Depressa, ide dizer aos seus discípulos: ‘Ele ressuscitou de entre os mortos, e eis que vos precede na Galileia; é lá que O vereis’” (Cf. Mt 28, 7). Cristo Ressuscitado precede todos os missionários de ontem e de todos os tempos, na Galileia das nações.

“Em toda a vida da Igreja, deve-se sempre manifestar que a iniciativa pertence a Deus, ‘porque Ele nos amou primeiro’ (1Jo 4, 19) e é ‘só Deus que faz crescer’ (1Cor 3, 7). Esta convicção permite-nos manter a alegria no meio duma tarefa tão exigente e desafiadora que ocupa inteiramente a nossa vida. Pede-nos tudo, mas, ao mesmo tempo, dá-nos tudo.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n° 12)

Como discípulo de Cristo, eu sou portador de uma luz, de uma Boa Nova e de um tesouro que não me pertence, que eu recebi gratuitamente e que me é impossível guardar para mim mesmo. Estejamos, então, certos que foi o Senhor quem nos escolheu para anunciá-Lo, e não a nós mesmos.

O Papa Bento XVI marcou com estas palavras brilhantes, nos conduzindo ao coração do Evangelho: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est, nº 1).

Cristo se deixa encontrar, e tendo-O encontrado, temos pressa para anunciá-Lo a todos aqueles que nós encontramos!

É por esse motivo que nós devemos procurar ser, em permanência, um instrumento na “cultura do encontro”, da qual fala tantas vezes o Papa Francisco (Cf. Evangelii Gaudium, nº 220). De fato, é a partir da nossa própria experiência da misericórdia do Pai, que nós somos impulsionados pelo desejo vivo de oferecer, como canais, essa misericórdia inesgotável.

“Se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de comunicá-Lo aos outros?” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n° 8)

S. Paulo declara que “a fé vem pelo ouvido”: “a fé vem da pregação e a pregação é pela palavra de Cristo” (Rm 10, 17). Há, então, a necessidade da introdução de um elemento externo, que vem revelar à pessoa encontrada, aquilo que ela não pode descobrir por si mesma. Feliz o evangelizador de quem o Senhor poderá se servir como esse instrumento externo, o qual, no entanto, deverá ser suficientemente dócil, maleável, à escuta e atento com a pessoa encontrada, na sua receptividade, sua liberdade e nas suas expectativas mais profundas.

“Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Mas como poderiam invocar aquele em quem não creram? E como poderiam crer naquele que não ouviram? E como poderiam ouvir sem pregador? E como podem pregar se não forem enviados? Conforme está escrito: ‘Quão maravilhosos os pés dos que anunciam boas notícias!’” (Rm 10, 13-15)

É somente graças a este encontro – ou novo encontro – com o Cristo, que o amor de Deus vem converter os corações em uma nova e mais profunda amizade com Ele, libertando-os da sua tendência ao isolamento e à autorreferência. Esta nova união com Cristo torna-nos mais plenamente humanos, quando deixamos Deus penetrar no mais íntimo de nós, permitindo-Lhe nos conduzir para além de nós mesmos, até ao nosso ser mais verdadeiro. Porque o Senhor, que nos conhece, é “mais íntimo a nós, que nós mesmos”.

Em cada ser há esse estado latente, esse desejo por vezes secreto, de encontrar o sentido do belo, do verdadeiro, do bem... Se Cristo Vivo for apresentado a essas pessoas com luz, beleza, equilíbrio e consistência, Ele pode, então, inflamar esse desejo escondido do coração humano. O pavio será aceso em contato com a chama que se aproxima.

O Documento de Aparecida afirma: “Nenhum esforço nem revolução alguma podem satisfazer o coração humano. Só Deus, que nos criou com um desejo infinito, pode preenchê-lo com a Sua presença infinita”.

É impressionante constatar nos Evangelhos, o número de vezes onde estes encontros providenciais de Cristo se passam no momento de uma refeição. Deveríamos, certamente, nos inspirar neste “método” vivido pelo Senhor. Notemos que esta proposta de encontro em volta de uma refeição fraterna é praticada em diversos ambientes, tais como: o Percurso Alpha, as Células de Evangelização, as Casas de Aliança...

Uma das nossas terras de missão privilegiada na Comunidade Sementes do Verbo é: encontrar os jovens, em um período determinante ou crítico das suas vidas, no tempo das escolhas e das orientação do seu futuro; propondo-lhes um retiro espiritual, ou um ano para Deus, na oração, no confronto com a Palavra de Deus e o acompanhamento; o que os ajudará a pôr ordem e a estruturar a sua escolha de vida antes de qualquer decisão importante. Este encontro poderá, por vezes, fazer-se também em uma situação particular de sofrimento ou de provação; quando a pessoa tem o coração esmagado e, desse modo, aberto a uma mensagem de anúncio da presença salvadora e consoladora do Senhor. “Um coração contrito e esmagado, ó Deus, tu não desprezas” (Sl 51, 19). É, então que o coração do discípulo, em vez de se deixar vencer pelo medo que paralisa, pode se deixar encontrar pela compaixão de Cristo. Porque toda a evangelização nasce de uma paixão, a Sua, que é o motor da evangelização.

“Sim às relações novas geradas por Jesus Cristo.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, nº 87)

Somos todos chamados a ir ao encontro das pessoas para lhes falar de Cristo, do seu amor que perdoa, liberta, cura e transforma. Existe, por vezes, uma discrição doentia, que, sob o pretexto de virtude e de respeito, deixa o outro, finalmente, à espera, à distância e na ignorância da Boa Nova.

Procurar fazer Cristo ser encontrado e, para isso, ir ao encontro das pessoas, daquelas que estão isoladas, tanto as excluídas como as pessoas de melhor condição, construir pontes, dialogar... “Toda a pessoa humana é uma história sagrada...”.

“Conhecê-Lo, (Cristo), conhecer o poder da Sua Ressurreição e a participação nos Seus sofrimentos, conformando-me com Ele na Sua morte.” (Fl 3, 10)

“Quero agora recordar o dever que incumbe sobre nós em toda e qualquer época e lugar, porque ‘não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus como Senhor’ e sem existir uma ‘primazia do anúncio de Jesus Cristo em qualquer trabalho de evangelização’.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, nº 110)

Caros amigos, no início deste novo ano, voltemos a beber da fonte do sentido e do amor da nossa vida: Jesus Cristo Vivo! E se vier à nossa consciência que nós estamos afastados Dele, façamos um rápido exame de consciência, ajudados por estas palavras inspiradas do sucessor de Pedro:

“A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se não sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em oração para Lhe pedir que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada dia, pedir a sua graça para que abra o nosso coração frio e sacuda a nossa vida tíbia e superficial. Colocados diante dele com o coração aberto, deixando que Ele nos olhe, reconhecemos aquele olhar de amor que descobriu Natanael no dia em que Jesus Se fez presente e lhe disse: ‘Eu te vi, quando estavas debaixo da figueira!’ (Jo 1, 48).” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n° 264)