Origens da Festa da Páscoa

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A festa da Páscoa (cf. Ex 12, 21b-23) tem origem num rito de características nômades e pastoris, anteriores ao êxodo e mesmo comum a outros povos. Consistia na imolação de um cordeiro, com cujo sangue se deviam aspergir as entradas das casas ou das tendas, com o fim de preservar a vida das pessoas e dos animais de todos os perigos. A carne era assada ao fogo, comia-se com pão sem fermento, que ainda hoje é o pão dos beduínos; com ervas amargas, que são as ervas do deserto; e comia-se em situação de quem está de viagem. Esta festa ou rito tinha lugar na primeira lua cheia da primavera, na altura que os pastores partiam com seus gados na busca de novas pastagens. Era a vida que recomeçava com todos os perigos decorrentes da sua própria natureza, perigos que era necessário esconjurar e que se personificavam no “exterminador” (Ex 12, 23). Era para se protegerem do exterminador que aspergiam as portas com o sangue do cordeiro imolado. Foi este sacrifício, em louvor a Deus, que Moisés teria pedido ao Faraó para celebrar no deserto (Ex 3, 18; 5, 3;     7, 6; etc). É este rito pastoril que os israelitas vão assumir como a mais importante festa comemorativa da sua saída ao Egito.

Com o passar do tempo, houve uma transformação da celebração desta festa a partir da conjugação histórica de dois acontecimentos: a celebração da Páscoa pelos israelitas e o flagelo das pragas que vitimaram os egípcios e possibilitaram a saída dos hebreus da terra da escravidão. Foi exatamente a conjugação desta recordação histórica (a saída do Egito por altura do flagelo, com a celebração da Páscoa no mesmo momento) que possibilitou a transformação do significado de todo o rito pascal. O próprio nome (Páscoa) foi interpretado no sentido de que o Senhor “passou” por cima, protegeu as casas dos israelitas, poupando-os do flagelo, em razão do sangue do cordeiro que assinalava as suas casas   (Ex 12, 24); as vestes dos pastores transformaram-se nas vestes de viajantes prontos a sair    (Ex 12, 11); o pão sem fermento no símbolo da saída (Ex 12, 34-35).

Apesar da importância desse acontecimento para os israelitas, só mais tarde é que a Páscoa vai fazer parte das grandes festas de peregrinação a Jerusalém, na altura das quais todo o povo se reunia para celebrar e cantar os grandes feitos do Senhor. Com a mudança no estilo de vida dos israelitas, da vida nômade para a vida sedentária, os costumes também se modificaram. É assim que a festa da Páscoa de origens pastoris, vai assumindo elementos da festa dos Ázimos, festa de características mais agrícolas, para celebrar os mesmos acontecimentos. Isso se deu porque a festa dos Ázimos era celebrada na mesma altura, isto é, na primavera, no mês do Nizan. Assim, as duas festas juntam-se numa só com o nome de Páscoa. Dessa junção, explica-se o texto de São Paulo: “Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos, pois a festa não com o velho fermento da malícia da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade.” (1 Cor 5, 7).

Apoiando-se no texto de 1 Cor 5, 7, os cristãos dos primeiros tempos começam a chamar “Páscoa”  à comemoração anual da Paixão do Senhor. Da páscoa judaica, os cristãos receberam o nome, a data e o simbolismo, mas a realidade nova é Cristo, o cordeiro pascal da Nova Aliança. Os escritos apostólicos já ensinavam o caráter pascal da salvação em Jesus Cristo. Não se admira pois que os cristãos, conscientes de formarem o novo Israel, vissem na morte do Senhor a plena realização da páscoa judaica.

Ao olharmos hoje para a páscoa de Jesus, reconhecemos a hora de Jesus passar deste mundo ao Pai (Jo 13, 1). Este ponto culminante da história da revelação e, por isso mesmo, da obra salvífica de Deus, é o ponto mais alto de uma existência toda ela vivida como “passagem” de Si mesmo ao Pai. Tornando-se nova Páscoa, derramando o seu próprio sangue na imolação total de Si mesmo, na fidelidade absoluta ao amor do Pai, Jesus leva consigo a própria humanidade cujos pecados assume sobre Si mesmo. Torna-se o novo Israel. E será, enxertados Nele, a verdadeira videira, que os homens se constituirão em família de Deus, povo sacerdotal, comunidade liberta agora do poder do pecado e da sua força de morte. Nascidos da e na Páscoa de Jesus Cristo, é na comemoração desta que o novo povo de Deus se refaz, toma consciência de si mesmo, renova-se e realiza-se como povo resgatado, herança de Deus e sua propriedade. Mas a Páscoa tem outra celebração: a celebração dominical. É o dia do Senhor, o dia da Ressurreição, o oitavo dia, o dia da renovação, da recriação. Efetivamente, celebrar a Eucaristia não é simplesmente recordar o passado, muito menos repetir um rito. Celebrar a Eucaristia é tomar parte na doação pessoal de Jesus e tornar definitivamente presente a salvação de Deus no Seu Filho.

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